quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Saudades

Existem dias em que a nostalgia sopra em nossa face,
trazendo o vazio e o gosto daquilo que jamais provamos,
saudades da luz da estrela que jamais vislumbramos,
saudades do amor que nunca tivemos,
saudades daquele que ainda não conhecemos.
Existem tardes que os sentimentos se confundem,
a solidão arrebata-nos e o coração leva-nos para longe,
o calor do fogo que um dia há de nos queimar,
saudades daquele que partiu e que nunca o vimos chegar,
saudades da bruma que jamais pairou nas nossas manhãs,
saudades das sombras que nunca beijaram a luz,
saudades do beijo de almas ardentes,
lágrimas que jamais rolaram,
beijos que jamais recebemos,
flores que não murcharam por jamais terem nascido,
a melodia que jamais ouvimos,
uma felicidade alucinada que nunca sentimos,
saudades do que nunca existiu,
do que não se enxerga, logo jamais se viu
saudade daquilo que somente se sonhou
e que jamais se realizou.

Perdida


Me perdi na dimensão do tempo,
jamais novamente encontrarei minha alma;
alma de fada, corpo de mulher, eu desejo;
sou o desejo, beijo o vento,
quero o mundo na mão, na minha palma.

Sou brisa que anuncia tempestade,
sou só um pequeno verão e uma imensa tarde,
sou um filha do medo e irmã da vaidade;
somente para mim quardo do universo a verdade.

E a chuva não tarda e em torrente cai,
lavando os pecados do mundo,
afogando os imundos,
matando os impuros,
e com a água o sonho também se vai.

Eu continuo meu caminho, só e dividida;
minha alma ao leste está adormecida,
meu corpo, ao sul, é de uma mulher ferida,
ao oeste, minha mente insana jaz perdida
coração, ao norte, incapaz de emoção desmedida.

Restaurei minha memória de vidas passadas,
me ví mirando o mar em enseadas enluaradas,
não me apavorei em meio a mães desesperadas,
usei um colar com mil e uma flores enfeitiçadas,
mas nem todas as mágoas estão mortas e enterradas.

Ainda choro com as mesmas lágrimas de antes,
sofrendo a perda de imensos amores e amantes,
é o mesmo pranto correndo em diferentes faces,
o mesmo veneno bebido em diversos cálices.

Bebo e sorvo, de vidas diversas, todo o veneno,
meu riso cálido se extingue a cada novo começo,
que quanto mais sofro, mais morro, mais pereço,
mais certeza tenho que a esse lugar não pertenço.

Deusa

Sou mais fluída que água, sou remanso, sou queda, sou cascata, sou mar;
Sou mais etérea que o ar, sou calma, sou nuvem, sou eu que te faço flutuar;
Mais quente que lava, mais fria que gelo, jamais explodir, nunca derreter;
Quero navegar pelo azul do céu dos sonhos e no oceano do incerto, me perder.

Meus pés jazem na terra, nela sou grama, sou verde, sou árvore, sou floresta;
Meu coração está no mar, sou gota, sou maré, sou onda, sou azul, sou o sal;
Mente está do Olimpo ao Valhala , em todo paraíso conhecido, sou anjo e besta.
Onde está meu poder? Onde jazem as forças que me conduzem ao bem ou mal?

Que da lua crescente, me faz menina; donzela intocada; sou pálida, sou cálida, sou fria.
Na lua cheia me fiz mulher, sou bruxa, sou todo poder, sou imortal, sou luz que guia.
Na lua minguante amadureci, sou anciã, sou experiência, sou mandinga, sou juízo.
Na lua nova sou negra, sou sombra, sou Lilith, sou mágoa, sou alcova, sou feitiço.

Que fiz meu templo de tempo, folhas, flores e frutos; colunas de carvalho, céu estrelado;
Um caminho iluminado até as fogueiras, tenho para meus filhos um chão enluarado.
Sem medo ou vergonha, sem dádivas ou oferendas além do amor por mim,
Aguardo-os serenamente a encontrar meu coração, mas a jornada não tem fim.